Artigo PRAL (Água Alcalina) – Dr. Julio Bergmann

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2016.08.19_água

Porque a alimentação alcalina gera tanta polêmica no meio dos profissionais de saúde se já existe ampla literatura científica a respeito?

Nos últimos anos, por diversas vezes, colegas de área de saúde me questionaram vários pontos sobre dieta alcalina. O objetivo deste post é tentar esclarecer cada um deles.

A primeira dúvida que recebo sempre é:

Profissional de saúde: Se alcalinizarmos o estômago alguns alimentos não serão adequadamente digeridos. Além disso, a acidez estomacal é uma barreira contra bactérias, fungos e vírus. Acabando com esta barreira o nosso organismo está mais predisposto a infecções.

Dr. Julio: Este raciocínio está correto quando usamos um medicamento chamado omeprazol ou algum derivado de sua família. Este medicamento bloqueia a formação de ácido pelo estômago, (inibe a bomba formadora de ácido) o que faz com que o estômago fique alcalino. O pH normal do estômago é entre 1 e 4. Quando usamos esta medicação o pH do estômago fica mais próximo de 7, o que gera transtornos de absorção de alimentos e quebra de barreira contra infecções oportunistas.

Quando ingerimos uma dieta alcalina, ou água alcalina o estômago, através da bomba formadora de ácidos, libera mais ácido em seu interior e MANTÉM o seu pH entre 1 e 4, pH este ideal para digestão e que funciona como barreira contra infecções oportunistas. Portanto, a alimentação alcalina não deixa o interior do estômago alcalino.

Quando este mito é derrubado, chega a segunda dúvida:

Profissional de saúde: Porque fazer uma alimentação alcalina se tudo fica ácido no estômago?

Dr. Julio: Para entender a resposta precisamos entender um pouco mais sobre o funcionamento do estômago e como funciona a bomba produtora de ácidos. Cada vez que o estômago libera 1 molécula de ácido clorídrico (HCl) no seu interior ele precisa liberar 1 molécula de bicarbonato (que é alcalino) para a corrente sanguínea, para manter o seu pH (do estômago) estável. Cada vez que o estômago libera uma molécula de bicarbonato na corrente sanguínea isto alcaliniza o sangue. Embora o estômago continua ácido, a corrente sanguínea se torna mais alcalina, tanto pela presença de bicarbonato, como pela presença de alta concentração de minerais alcalinos absorvidos, presente nas dietas alcalina. Isto gera a famosa onda alcalina pós prandial (pós alimentação). Portanto, embora o estômago não fique alcalino, ocorre uma liberação de bicarbonato na corrente sanguínea e absorção de minerais alcalinos, quando da ingestão de uma dieta alcalina, o que gera um residual alcalino para o nosso corpo.

Quando este segundo mito é derrubado surge a terceira dúvida:

Profissional de saúde: Caso o seu raciocínio esteja correto então se eu ingiro uma dieta ácida o pH do meu sangue fica ácido e se eu ingerir uma dieta alcalina o pH do meu sangue fica alcalino. Eu sei que o pH do sangue, independente da dieta, não fica abaixo de 7,35 nem acima de 7,45. Portanto não faz sentido. Além disso, fora desta faixa de 7,35 a 7,45 o pH é incompatível com uma vida saudável.

Dr. Julio: Este raciocínio acontece, pois existe uma confusão de conceito. Muitos profissionais confundem acidemia com acidose, assim como confundem alcalemia com alcalose.

Acidemia é quando o pH do sangue está abaixo de 7,35. Acidose é quando eu tenho algo no meu organismo que não está bem e que gera acúmulo de ácidos. Como nosso organismo é dinâmico sempre que tiver um estado de acidose ele vai tentar usar de mecanismos compensatórios para não deixar o sangue ácido, o que seria incompatível com a vida. Um dos mecanismos de compensação que são ativados quando temos acidose está relacionada com uma célula óssea chamada osteoclasto. Quando temos acidose o osteoclasto retira minerais alcalinos dos ossos, principalmente cálcio e magnésio, o que equilibra o pH do sangue fazendo com que ele não fique ácido. O pH do sangue permanece entre 7,35 e 7,45, mesmo sobre um evento de acidose. Existem outros mecanismos compensatórios que eu poderia citar, porém são amplamente conhecidos por profissionais de saúde e poderiam atrapalhar o raciocínio.

Portanto, ingerir cronicamente uma dieta ácida irá gerar acidose crônica, porém não gera acidemia, ou seja, independente da dieta o pH do seu sangue não vai baixar de 7,35, a menos que você tenha uma doença grave. A acidose crônica, devido a uma ingesta contínua de alimentos ácidos, está relacionada a diversas doenças crônicas, cientificamente comprovadas. Abordarei cada uma das doenças crônicas relacionadas a dietas ácidas em futuras publicações.

Derrubado mais este mito muitos profissionais da área de saúde me fazem um último questionamento.

Profissional de saúde: Concordo com tudo que foi escrito e dito para mim. Porém, quando fui atrás de literatura científica e procurei sobre dieta alcalina e água alcalina não consegui encontrar um único trabalho científico. Você me disse que tem ampla literatura científica sobre o assunto.

Dr. Julio: Quando os artigos científicos falam sobre dieta alcalina eles usam o termo PRAL (potential renal acid load). PRAL é uma sigla em inglês que significa potencial de carga renal ácida. Através da fórmula do PRAL é possível determinar se um alimento é acido ou alcalino.

Quando explico isto para os colegas profissionais de saúde e eles procuram por PRAL na literatura científica um novo horizonte se abre. Colegas que inicialmente eram céticos e críticos do assunto viram fervorosos indicadores da alimentação alcalina, pois encontram as evidências que precisavam.

Agora você entendeu que se você quer ter uma vida mais saudável, você deve ingerir uma alimentação alcalina, que no meio científico é considerada como dieta com PRAL negativo.

Não se preocupe se você não entendeu o que é PRAL. Preparei um post inteiro explicando sobre PRAL.

Se você quer saber a lista dos alimentos com seu respectivo PRAL cadastre-se que enviaremos para o seu e-mail.

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